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Quinta-feira, Junho 13, 2024

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O mistério do Monóptero de São Gonçalo

MOGADOURO – Percorrendo o interior de Trás-Os-Montes encontram-se construções misteriosas como esta, num local isolado no meio do campo junto a aldeia de Penas Roias, bem perto de Mogadouro.
Segundo consegui apurar, este monumento singular é Raro (salvo melhor informação, existem três do género em toda a Europa), neste local onde hoje se ergue o Monóptero de São Gonçalo existiu, outrora, uma ermida com a mesma invocação.
Fundada cerca de 1571, na Quinta Nova, propriedade dos Távoras, este templo encontrava-se já bastante arruinado em 1720. Na realidade, a descrição que o padre Agostinho Dias da Silva fez da ermida revela-nos que, nessa data, apenas subsistia a capela-mor, transformada em espaço para recolha de gado. Todavia, o referido padre conta-nos que, nesse mesmo local, havia sido erguida, a expensas da população, uma outra construção para albergar a imagem em alabastro de São Gonçalo.
Ou seja, o monóptero que hoje conhecemos, e cuja edificação deverá situar-se, sensivelmente, no Séc XVIII. Nesta medida, o monóptero assinalava um lugar santo, tal como a “cruz assinalava as cabeceiras das igrejas paroquiais abandonadas”. Todavia, a sua configuração parece encerrar um significado bem mais complexo, que o recente estudo de Luís Alexandre Rodrigues procurou esclarecer.
Assim, a planta circular, as colunas com fustes pseudo-salomónicos, os capitéis jónicos e a balaustrada que se lhe sobrepõe, convergem para a materialização de uma arquitectura híbrida, mas fortemente actualizada em relação à linguagem barroca de origem italiana, com citações clássicas.
Por outro lado, a configuração do monóptero não deixa de recordar o templo de Jerusalém, facto que pode ser associado à Ordem de Cristo, que tanta influência teve nesta região.
De facto, na época posterior ao Concílio de Trento, a questão do Templo de Salomão como ideia de perfeição, foi retomada, a diversos níveis. Reflexo desta situação é a importância conferida à planta circular, que teve um impacto decisivo na preferência pela composição centralizada dos sacrários, num período em que o sacramento da Eucaristia e a devoção ao Santíssimo conheceu um impulso fortíssimo.
Paralelamente, e na península Ibérica, as obras dos jesuítas Jerónimo do Prado e João Baptista Villalpando e, posteriormente, de Caramuel de Lebkowitz, retomaram a ideia de reconstrução do templo de Salomão e a representação do novo Santo Sepulcro, ou Templum Domini.
Se, até agora, não foi ainda possível estabelecer uma linha de continuidade entre estas questões e o monóptero de São Gonçalo, parece-nos que a sua edificação não se deverá afastar deste quadro de leituras iconográficas, pois só assim seria possível justificar e compreender a sua arquitectura, quase única no país e bastante estranha a esta região.
(41°21’57.47″N 6°39’9.12″W) Penas Roias – Mogadouro – Bragança – Trás-os-Montes – Portugal
“Um beijo é um segredo que se diz na boca e não no ouvido.” – Jean Rostand
O mistério do Monóptero de São Gonçalo

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